terça-feira, 15 de junho de 2010

Render-se jamais


O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezastes esta lei de Augusto Comte
E fostes ser feliz longe de mim
Estou mandando às favas este ufanismo e falso patriotismo que se manifesta apenas em tempos de copa, em tempo em que a nação veste-se de canarinho, pinta o chão, pendura fitinhas verde-amarelas e sai às ruas com bandeirolas nos carros e aquelas corneta chatas e bubuzelas (vuvuzelas) soprando nos meus ouvidos. Não sou desaculturado, até gosto de futebol, jogava bem no gol e na linha quando moleque, disputava até uns campeonatinhos que armávamos no interior em Julho, já fui no museu, no Pacaembú, mas esta babaquice toda está enchendo o meu saco.
Eu estou na boa em casa, lendo algumas pesquisas dos estudantes, escutando uns baita sons (o último do UFO, uma coletânea do Brian Johnson, o primeiro do Barão com Frejat nos vocais, Bang!) Uli John Roth e Soft Machine), que continuo garimpando nos blogs  rockers e bluseiros, lendo as pesquisas que passei para os estudantes. Isso não prova que sou mais ou menos filho da mátria, pois os demais são tudo filho da p... Quando o pau come, o cerco aperta na briga de rua, só vejo bunda mole arregando da briga,  só pensando no próprio umbigo e tirando o seu da reta. Apóio a campanha do Jards Macalé pra colocar o Amor, um dos lemas do positivismo que ficou de fora da bandeira do Brasil.
Já fiz a reposição de quase vinte dias dos trinta da greve. Ganhei uma cesta básica do sindicato como prêmio de consolação, agora posso comer meu angú de caroço que farei com o fubá, comer goiabada, uma vez que a grana já foi pro saco no meio do mês. Pra aquele que briga e mata um leão duas vezes por um dia e ainda terá que repor aulas dos jogos que cairem em dias de semana nas próximas etapas, ser obrigado a ver um bando de marmanjos ganhando centenas de milhares só pra ficar correndo atrás de uma pelota oval chamada Jabulani é um negócio que torce as bolas. Não fazem mais do que a obrigação, e ainda dão vexame.

 Olha eu ai, cabeça raspada, numa das sacadas do Museu do Futebol, no Pacaembú (Janeiro 2010)
Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo que veio antes e depois. Walter Benjamin


O homem só será livre quando o último déspota for enforcado com as entranhas do último padre
Denis Diderot

domingo, 13 de junho de 2010

Carne enlatada no dia dos namorados

Ontem fomos ao Bixiga, havia uma peça do Brecht em cartaz, cujos convites fui retirar no Sindicato. É sempre bom ver um Brecht em um contexto de crise, ainda mais que a peça era Santa Joana dos matadouros. Brecht não cai no maniqueísmo ralé como alguns pensam, ele consegue atingir aquele distanciamento crítico, para além de operários açougueiros bonzinhos e acionistas da bolsa de carne malvados, além dos religiosos do exército da salvação que ficam pelegando no meio com seus chapéus pretos. Depois passamos num bar antigo lá pelo bixiga, mandamos ver umas cervas escuras, uma massa e fomos embora pro conforto e o calor dos cobertores. Logo cedo, eu li para ela uma novela do Decamerão de Bocaccio, sobre um cara que se passou por paralítico para chegar mais perto do cadáver de um homem santo. Rimos um bocado. O Decamerão, As mil e uma noites e o 120 dias de sodoma têm sido os livros de cabeceira desde sempre, e não apenas nesta semana de dia dos namorados. Eventualmente surgem outros.


Tá um friozinho que dá uma preguiça de começar a fazer as coisas neste dia. Perdi a companhia do meu bem logo cedo, ela foi trabalhar em pleno domingo, enquanto fico numas de tocar as coisas de modo solitário. A sua companhia é sempre muito boa, no frio, ainda mais, para esquentar e ser meu cobertor de orelhas e do corpo inteiro. Para escrever, na solidão, tudo pode fluir melhor, para eu escrever, embora eu tenha que ler um bocado de pesquisas que pedi aos estudantes, mas não são muitas, coisa que darei conta logo, e farei meu próprio rango na boa, sem stress de ficar aperreado fazendo o almoço na correria. Vou escutando um Zeppelin, o volume 4 ou um Chicago, além de uma pá de coisas que baixei, uns Free que eu não tenho em vinil, Bad Company ao vivo, BB King, Alberto Collins, Buddy Guy e Freddy King e a coisa vai ficando melhor, as ideias vão fluindo e se desentrevando neste dia frio paulistano.

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