domingo, 27 de maio de 2012


A feiticeira mística afrodisíaca apoderou-se da minha alma
Profetiza os traços da vida na palma da mão - uma cigana
Enquanto o senhor Xangô dá a linha dos búzios com Oxum
O exu meia noite vem trazendo tudo o que é bom
Encontros inusitados com a dama da meia-noite
O vento sopra entre árvores tristes, sangrando lágrimas em seivas
São brigas seculares de amor, passeando pela paulicéia
Praça da República com suas estátuas e Álvares de Azevedo no largo São Francisco
Continuas a ser a grande musa dos encontros fantasmagóricos, casuais, instigantes
Se vacilas o charme de pai Xangô traz outras deusas e damas e musas
Deixando-a ciumenta, mas sempre és a predileta
O tempo parece ficar no Absurdo paralisado
Voltamos a ser crianças azuis, perdida no devir espiral
As ruas ficam encantadas, árvores choram, estátuas mórbidas ganham olhos
passeando pelo Bixiga ou no grito da independência do Ipiranga
Arremessado ao vento o coração de um errante andante da noite
perdido, sem vela, sem nau, sem leme e mesmo sem rumo
Procurando por alguma batalha de alguma guerra que ainda valha à pena
Deitando uma ficha na Jukebox atrás daquela velha canção de Rod Stewart
Inundando as estações lunares da percepção
Incursões noturnas do caminhante pela paisagem da velha Roosvelt e baixo Augusta
Passeando de ônibus da República, Paulista até Pinheiros
Ruas esburacadas pelas obras do "Progresso"
Levando passageiros madrugada adentro, noites de insônia e uísque
Repletas de bruxuleantes morganas circulando pela imaginação
As idéias dos vencidos, as ilusões vem de metrô
Inundam como afluentes -
amor e ódio são fluentes em uma paixão violenta
Procurando por aqueles que ainda estão vivos
Por quem ainda tem sague nas veias dos olhos
Por quem não se enredou nas engrenagens da burrocracia
desumanizante feito um processo em tribunal da santa inquisição
Por homens e mulheres que sangram, choram, transpiram
tem raiva e seus momentos de fúria e explosão
Os que não se entregaram ao absurdo da rotina cotidiana da máquina de moer carne
E ainda procuram pela beleza e simplicidade das coisas
A jovenzinha que vem instigando e empurrando com a fúria de sua paixão
A madura e experiente sedução, com seu intelecto me completam
Só me completo com as duas - com a rebeldia e a fúria da juventude, o seu turbilhão me arrastando
junto à maturidade, a experiência e a sapiência da mulher balzaquiana
O poeta atrevido, cara de pau, malandro Zé Pelintra, poeta bandido, banido
Macunaíma, poeta da noite e da boemia, procurando por algum sorriso
e um bom par de coxas para secar no metrô às cinco da matina
Aguardando ansiosamente por alguma mensagem sua, que venha fluindo em ondas magnéticas
do alento, do encanto, da esperança romântica
Aguardando alguma notícia sua, escutando Don´t let me be misunderstood
Pedindo pelos restos de sua compreensão ou mesmo alguma mensagem desaforada sua
alguma ofensa, um xingamento ou mesmo a sua braveza significa ainda reconhecimento
Continuo o mesmo garotão com a mochila ou a sacola à tiracolo
sonhando contigo toda gordinha das faces, passeando pela casa de interior

Balada dos anjos perdidos

A noite corria tranquila. Carlos descia do cinema, havia assistido um filme, Absolute Begginers, sobre os baby boomers, o jazz do Soho, com o David Bowie, Sade, entre outros no elenco. Descia tranquilo, pela Consolação abaixo, no bairro escuro dos Jardins, passando na porta das casas em que se dizem baladinhas mais diversas possíveis. Foi cortando as ruas, cruzando-as suavemente, ouvindo o Joe Cocker esgoelando-se e alternando com a calamaria de seus blues. Também enquanto a bota mandava ver, e ele passava pelos cemitérios, olhando em busca de seu João, ouvia Koko Taylor esgoelando seus blues. Seus fones mandavam ver, passando pelas encruzas, esperando topar com um exú. Seguia seu rumo, tranquilo, procurando por uma festa, para rever os conhecidos, mas não encontrou nenhum, e nem mesmo o endereço da festa. Procurou de cabo a rabo: subiu, desceu a rua, mas não encontrou aquele número, aquele endereço, até que tangenciaram em uma informação. Desistiu, entregou os pontos naquela procura, depois de muita peleja, mas parece que no tempo em que foi comprar um lanche e um trago, esperando o buso na Teodoro, chegaram dois doidos, uma baranga loira desbocada com um malandro mamado com uma lata na mão. A mulher loira queria subir de qualquer jeito, mesmo que fosse de táxi. Perguntou a Carlos sobre ônibus, que deu-lhe a informação sobre o intervalo maior dos ônibus, na madrugada. Nisso, chegou uma moça, na verdade, com uma cara de menina, assombrada, dizendo ter sido assaltada, que tinham levado seu dinheiro, procurando o ônibus para Santo Amaro. Orientaram que ali não tinha, que era no Largo da Batata. O malandro se interessou, dizendo que ela era uma menina, que não andasse por ai, pois seria um corpo estendido, boiando no rio no dia seguinte. Sua mulher logo enciumou, ficou possessa, dizendo que não tinha nada de menina, que naquela idade não tinha de criança, que ela se virava, que era problema dela, e que o cara queria ir, que fosse, galinhar para cima dela - isso muito possessa, vendo a arrastada de asa que dera, e logo chamou um táxi e entraram. Os caras não se proporam. Carlos, ali no ponto, enconstado, esperando meu ônibus a pouco, tomou atitude, e disse que a levaria, pois pegaria ônibus na Rebouças, e que dali não custava nada, desceriam juntos. A menina foi seguindo. Era uma menina mesmo, com cara de boneca, olhos grandes, pretos, cílios destacados, vestia uma jaqueta cinza, blusa azul, tinha cabelos cheios, castanhos escuros e pretos, um rosto branco, que Carlos viu quando ela perguntara se estava vermelho, mas na verdade estava pálido. Ela usava ainda uma meia calça, um sapato que parecia uma bota, tinha as unhas pintadas de preto, anéis, colares, pulseiras, coisas de uma moça daquela idade. E Carlos foi acompanhando, tentando acalmá-la, ela reclamava do frio, que estava com dor de cabeça, de passara o susto, que ficara nervosa, mas que agora, vinha a preocupação com a perda da carteira roubada, cartões, documentos, que teria que tirar tudo novamente. Carlos foi acalmando, que o importante é que nada acontecera a ela. Ela agradecia, dizendo que Carlos era um anjo, mas na verdade aquela mocinha é que era um anjinho caído na terra, de asas quebradas, e que não poderia ficar perdida pelas ruas, abandonada e desprotegida. Ele disse que a ajudaria, pois ela teria que tomar um ônibus até o terminal Santo Amaro, e depois, seguir rumo à Interlagos, tomando outro. Orientou um cara que procurava por um restaurante fast food Árabe, atravessando a rua. Perguntou como ela se chamava, ela disse que era Giovana, Carlos disse o seu, e ela disse que era um prazer conhecê-lo. Passaram em frente aos risca-faca e os inferninhos do Largo da Batata, tocando forró eletrônico, funk e sertanojo. Giovana vinha atrás, Carlos se preocupava se nenhum função mexeria com aquela princesinha. Os comportamentos lascivos davam-se ali mesmo em frente, e o cenário era tomado pelos carrinhos de churrasquinho de gato, cachorro quente, pipoca. Perguntaram a respeito do ônibus, disseram que saia do canteiro central. Tiramos a prova com o rapaz da barraca de tapioca. O ônibus saira à meia noite e quinze. E só sairia às cinco e cinquenta. Giovana gelou. Carlos trocou o dinheiro, uma nota de cinco, e deu a ela. Giovana resistia. Carlos dizia, você auxilia alguém depois, sem problemas. Pensou em uma solução. Chamou-a para a Rebouças, pois era o melhor meio de tomar um ônibus e adiantar sua vida, indo para o Centro. Aquela menina era linda, ela tinha ainda um lenço amarelo e outras cores. Mas em nenhum momento Carlos abusou ou tirou proveito desta situação, conversaram, sobre em que ela trabalhava, disse que fazia fotografia de cabeleireiros, que não devia ter saído, que fora falar com uma amiga, que fora o pior dia. Ele fora consolando, que o mais trabalhoso eram os documentos. Ela perguntou porque ele estava até aquele horário, e Carlos contou toda a história. Ele trocou o dinheiro em um posto, deu mais, ela recusou. Ela dizia que estava ou tinha estragado a sua noite. Ele já tinha mesmo entregado os pontos, pois não achara o endereço da festa, disse-lhe. Ele tinha esta missão, ele fora designado para ajudá-la, para tirá-la daquele apuro, naquela hora, era mais do que um acaso objetivo desses. Chegaram no ponto da Rebouças com a Faria Lima, Um cara perguntava apara chegar no Ibirapuera. Ele iria na bota. Um outro rapaz lá estava, confirmou o roteiro que Carlos lhe disse. Ela estava com frio, sono, sentou-se, esperando o ônibus, que levou mais vinte minutos. Dormiu no banco junto a ele, perguntando. Ele disse que à noite era rápido, não havia trânsito. Ela dormiu de boca aberta, seus cílios grandes, os lábios carnudos abertos, mas em nenhum momento Carlos insinuou-se, não esboçou nenhuma tentativa. Ajudava sem interesse, sem exigir nada em troca. Apenas tinha interesse em conduzir aquele anjo lindo, aquela moça bonita, perdida na noite, para seu destino. Era um andarilho da noite, um boêmio que conhecia todos os seus caminhos e quebradas. Enfim, chegaram até o Terminal Bandeira, ela conseguiu carregar seu bilhete, despediram, ela ficou lisongeada de anjos que a ajudaram, que deram de si, e o sorriso dela foi o que mais valeu a pena no peito de um maluco doido, que foi dormir mais tranquilo. Alguma bondade o chamava, alguma boa ação, para ajudar, sem interesse em levar nada em troca. Apenas levar aquele anjinho para seu destinho, era ele um recolhedor de almas aflitas e perdidas na noite. Giovana até agora pensava em não cair em mãos de um fascínora, e dera sorte de trombar no seu destino um maluco andarilho, sincero e de bom coração que sabia o rumo de todas as quebradas e armadilhas da noite. Esperava que ela tirasse dali uma conclusão e outro conceito de um maluco. Carlos seguira tranquilo para sua casa, com a leveza do espírito, por ter feito uma boa ação. Chegou na sua casa. Tomou uma dose, para ajudar na recuperação. Sentou-se ao computador. No bate papo, uma mulher o chamava, exibia seus dotes, os peitos enormes, em uma foto muito provocante. Disse que o adicionara devido à sua barba, que tinha tesão por homens barbudos beatnicks. Ela tinha alguns conhecidos. Ele elogiou aquela foto, muito bem tirada, naquele ângulo. Depois dela sair, afinal, já era quase de manhã, Carlos desabotoou a calça e mandou ver, descascou uma banana em homenagem a esta gordinha e à todas garotas perdidas pela noite, porque também ninguém é de ferro.

sábado, 19 de maio de 2012

Novo Aeon: Um banquete de lixo servido para mendigos na Cozinha do Rock



O Marx pediu que eu resenhasse um disco do raulzito para um banquete de lixo e de mendigos na Cozinha do rock, pratos transbordando “nova iorque, catchup e caviar”. Trabalho hercúleo, pois tudo o que o mestre mandou é de primeira. Ainda mais quando o disco escolhido é o Novo Aeon (escolheria o Panela, mas este vem em primeiro) que tem o peso de ser o preferido do Marcelo Nova (e também resenhado pelo mesmo) e de outros caras, amigos raulseixófilos meus desde a mais tenra juventude.

Novo Aeon é um disco  recheado de mensagens filosóficas, sátiras aos modismos contemporâneos de Raul, poética, além de abordar temas mais do que variados, como amor, sexo, morte, além de claro rock and roll, comportamento, gerações, consumismo, ideologias, política, entre outros temas, como apenas o Raul soube tratar com sua marca pessoal. Seu parceiro era o letrista Paulo Coelho, hoje membro da ABL e mestre me adaptar contos orientais para fazer vender Best Sellers do momento, como Diário de um mago e o Alquimista, entre outros "livros agourentos, que ninguém entende, mas todo mundo quer ler"...
A primeira música do disco é uma balada, com uma guitarrinha bluesy, um coral, o hino dos perdedores que nunca entregam os pontos: “Tente outra vez”! Lute, nunca desista!
“Rock do diabo” é um rock que Raul costumava mandar como abertura em shows no inicio da década de 1980, que era seguida de uma história do rock and roll que Raul contava e mandava as principais músicas do rock no meio. Raul retoma a relação do blues com o diabo (mais precisamente com Robert Johnson) e a rebeldia do rock para desmistificar a figura do diabo pintada pelo cristianismo (“aquele do exorcista”). No livro Baul do Raul de Toninho Buda e Silvyo Passos, a menção ao diabo na obra de raulzito é mais detalhada: contém até uma figura de um diabo, um bode feminino, como fonte de conhecimento, de experiência e sapiência por ter ousado provar a fruta do conhecimento e desafiado deus. Raul coloca o diabo nesta música mais como uma fonte de experiência, o diabo da os “toques” (entendido em sentido amplo, de autoconhecimento), discutindo até a psicanálise freudiana.
Raul e Paulo Coelho dão um show de lirismo em “A maçã”, consegue discutir temas como o amor, o ciúmes e a idéia de amor livre, um amor que não trata o amante como propriedade ou mercadoria, como se dão as relações capitalistas.

Em “Eu sou egoísta”, Raul vomita uma série de impropérios contra a religião, a moral e os costumes contra os ismos totalitários, e retoma a sua afirmação do egoísmo de Max Stirner, autor  de O Único e sua propriedade. Sem delongas, o filósofo anarquista invidualista, discípulo de Hegel, dechavado por Marx na Ideologia Alemã critica o aspecto falso das Igrejas e Estado  autoritários, configurando um libertarismo anti-autoritário. Raul já cantava em primeira pessoa desde os primeiros discos, como Gita (Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar...) com a intenção de que quem cantasse, valorizasse seu eu, seu ego.
Em “Caminhos”, Raul consegue trazer a belíssima síntese de contrários que é o Real, o mundo, a contradição heraclitiana, o fogo e a água, o caminho do sangue é o chicote, do errado é o certo, o caminho da vida é a morte, que será retomado no lado B em Caminhos II.
Raul e Paulo Coelho fecham com chave de ouro as cortinas do lado A com “Tu és o MDC da minha vida”. Propositalmente cafona, brega, uma letra de amor piegas, satirizando um tipo de classe média modista, moderninha. Emplacam até uma rima do tipo “eu me lembro do dia em que você entrou num bode/quebrou minha vitrola e minha coleção de Pink Floyd. Satiriza marcas e programas que muitos nem conhecem hoje, Flávio Cavalcante, Casas da Banha, Pepsi-cola, Gradiente, representando o consumismo de modinhas e modernismos misturavam com Shakespeare.
O Lado B traz um tema ainda presente nos nossos dias, como o choque das gerações. Em “A verdade sobre a nostalgia”, retoma a discussão: qual é o rock melhor? Qual é a poesia melhor? O dos cinqüenta ou dos setenta? Raulzito ainda manda: “o rock hoje em dia já virou qualquer coisa, por isso cortei meu cabelo”, sempre polêmico.

Um dos pontos altos do disco é “Para nóia”, em que Raul fala sobre timidez, vergonha de mostrar seus escritos, bem como o sentimento de culpa cristã para com a masturbação e o temor de que Deus estava lá, vendo tudo o que se faz dentro do banheiro.
Peixuxa, o amiguinho dos peixes, é o netuno ou poseidon com seu tridente. Tem uma levada à la Beatles proposital, parece infantil, mas na verdade traz uma mensagem ecológica, denunciando a poluição dos mares – tão atual quanto o desastre no Golfo do México “E quando eu olho/ o mar com petróleo/eu rezo à peixuxa que ele fisgue esta gente”. Raul profético? Uma prévia do que Raul faria em Carimbador Maluco, passando sua mensagem e se vestindo de Proudohn nas barbas do Monstrosist. Pra entrar num buraco de rato, de rato você tem que transar, diria raulzito.

Em “Fim do Mês”, Raul recorre ao seu famoso sarcasmo contra uma vidinha acomodada, uma crítica ao modismo de maria-vai-com as outras “já fui hippy, beatnick, tinha um símbolo da paz pendurado no pescoço porque nego me dizia que era o caminho da salvação”. Algo que o capitalismo faz e nos leva a uma situação absurda kafkiana: preocupar-se com nossa morte em vida, e não aproveitar essa: “eu já paguei a prestação do meu tumbão”. Enfim, o sufoco pra pagar as contas, o preço do feijão que não cabe no poema, e corremos, nos matamos pra ganhar dinheiro e pagar mais contas do mês seguinte e nunca aproveitamos a vida como deveria ser.
Assim como no Krig Há, temos uma música em inglês neste disco, Sunseed, com sua parceira da época, Spacey Glow.

A faixa Caminhos II emenda com o banjo da faixa título, Novo Aeon. Nesta letra, os princípios que Raul já havia delineado sobre a Sociedade Alternativa, a Lei de Thelema: “sociedade alternativa, sociedade novo aeon, são retomados: é o direito de ser ateu ou de ter fé... direito de ter o prato entupido de comida que você mais gosta... e até o direito de deixar Jesus sofrer”

Disco imperdível e fundamental na coleção de qualquer um que curta o mestre Raul. É impossível não pensar em alguma situação ou não ter passado por alguma reflexão ou vivência descrita por Raul. E pra quem estranhou que citei o tempo todo lados, como diria Durval Discos, é que toda vida tem o seu lado A e seu lado B.
(esta é uma resenha que fiz, a pedido do Marx, em 24/06/2010, sobre o disco Novo Aeon, do Raul Seixas. Faz quase dois anos, não encontrava, agora vi, repasso)

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Desenhista do bar e restaurante Salada Record

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