quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mais cedo ou mais tarde, a política entra na vida dos neutros ou apolíticos, ainda que pela porta dos fundos

A respeito do pós-greve e da leitura de "A era do vazio", um livro de ensaio do filósofo francês Lypovetsky, que trata do individualismo moderno, pós-modernismo, consumismos e narcisimos e todos os ismos desta era que passamos:

Quando a água bate na bunda cada macaco no seu galho começa a se mexer e se preocupar. O problema é quando a água já os afogou... Seja na desunião da recente greve, em que não obtivemos conquistas materiais ou ainda que seja pela discussão tosca do direito de propriedade ou direitos autorais, pela exploração do autor pelas editoras (como se ser explorado por editoras fosse a maior das explorações de tantas que conhecemos).
Escuta, Zé ninguém ou gado bovino, coletivismo ou individualismo, em uma massa amorfa, e sem crítica contundente e ações coerentes e consequentes, tanto faz. Você é massa do mesmo jeito, ainda que pense que seu modo de vida sea autônomo, a Matrix te controla, boi.

P.S.: não apoio tortura a animais, e penso que isto é uma montagem, a não ser que o macaco goste.

Curtindo um som enquanto caminho ou pego o trenzão


Vou escutando de trenzão da CPTM mandando ver a maior sonzeira nas orebas. Também escuto uns sons na caminhada que fiz do centrão de Osasco até o bairro provinicano de Presidente Altino, passando por aquelas ruas antigas, em que se fez muita luta sindical metalúrgica há mais de quarenta anos, para passar numa escola daquele bairro, fazer uma visita sindical - é, isso que eu faço há mais de dez anos, além de ser professor antes de tudo, é claro: haja saco depois de tanta fodeção conosco, a pessoa é para o que nasce - para depois pegar o trenzão de volta. O sonzinho possante manda um poco de tudo, desde o pesadão do Fire, Could you understand me ?, que curto pacas, descobri sozinho, esta banda tem uma levada rápida, bluseira, com o baixão em destaque; e também, o Tymepiece, com o belíssimo Sweet release, um hard prog muito bom. Banchee e Eden rose completam o cardápio sonoro que coloquei especialmente para curtir estes dias.


Tenho curtido em casa pacas é o vinilzão duplo do Iron Butterfly, o Heavy e o Ball.  Banda das antigas. Lembro do Dalton, do disco do pai dele que curtíamos na saida da escola, a casa dele ficava no meio do caminho para a minha. E depois também lembro de que uma fitinha que continha Iron Butterfly, Jefferson Airplane que rolava nas madrugadas fumacentas e engorduradas, acompanhadas de doidos, ouvindo um som do Mutantes parecido com Sabbath, tomando pinga num balcão de um ceará muito gente boa, o Gera, que está de bar aberto em São roque, aonde ele habita. Ainda dá para tomar uma cerva, pois o cartão alimentação não foi cortado e eles ainda aceitam - apesar da moça do caixa ter me "advertido" ontem que é só pra comprar "alimentos" - ora quem diz que não é um alimento da alma a breaquês? para minha felicidade, e a gente vai levando como pode as coisas.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Pão com mortadela

Chego em casa já deglutindo a idéia de ficar sem o larjã no mês que vem. É simples, correr e se enforcar em mais uma porcaria de uma dívida que mais pra frente tudo se resolve, é como adiar a morte inevitável, entre tomar uma injeção letal ou a cadeira elétrica.  Legitimar o assalto à mão desarmada do banco ao invés de o assaltarmos. enquanto isso deito no copo um glutgluglutglu é um som maravilhoso que escuto pego uma fatia de pão e lambuzo num azeite e tudo fica bom novamente até acordar e ir para a estação do trem parece suportável já que vou escutando uma música e me divirto com o Caufield na estação esperando o vagão ou na volta do trampo já que na ida vou de pé cedinho com mais outros diversos candangos e candangas sonolentos e caras tristes margeando o pinheiros naquele trem expresso. Talvez à noite venham imagens bruxuleantes visitar-me povoar minha imaginação sacana mas já estou me acostumando paciência. Daí eu lembro de uma passagem do Misto-Quente em que Chinaski saiu de sua casa como aquela passagem é bonita e bem escrita fico pensando na vida e nas diversas situações e sinucas de bico que ela nos coloca.

Gosto dos escritos do véio China exatamente porque ele não se declarava porra nenhuma; era apenas um solitário à la Schopenhauer preferia suas audições de Mahlers só a música e as cachaças e mulheres que o faziam segurar o tranco e seguir adiante; detestava quando o tiravam da solidão para não lhe dar verdadeira companhia, como diria o Zaratustra. O compreendem mal pacas quando só o pensam como um beberrão ou coisas do tipo que ele não se declarava pertencer a qualquer merda dessas modas geracionais se era uma mosca de bar ao invés de preferir uma fábrica é porque é óbvio que todo peão ou trabalhador que se preze e faça juz a este autêntico nome prefere se enfiar num bar nas horas vagas, no desemprego, ou simplesmente na fossa, essa entendida como o depósito de merda; ele ou ninguém trampa porque quer ou gosta ou morre de paixões pelo chefe, é o eterno injuriado do sísifo ou do azarado pessimista que rola a pedra até o alto para ela cair de novo, mas porque alguém tem que meter a mão na merda e porque precisa bancar algum de seus vícios, pois quem não tem seus vícios pra bancar? não só os bandidos marginais tem vícios mas qualquer cristão de deus os tem a não ser se estiver morto for um chato ou um dalai-lama. O desemprego estrutural eterno ou a mudança de empregos precários para mais precários é uma constante nos seus textos e não só no texto a depressão econômica pós-crise de 1929. O quadro pintado por Buka sempre traz isto, a situação dos desempregados desajustados na sociedade norte-americana embora depois tenha sido o homem que teve vários empregos precários, o Faz-tudo ou Factótum  desde lavador de pratos, até pelo tempo nos correios em que teve mais estabilidade, até poder dedicar-se somente à escrever Ele se vangloriava por escrever seu primeiro poema depois de véio pois primeiro se tem que se sujar de poeira de graxa ou meter a mão na merda pra não ser um colarinho branco da escrita.

Eis a passagem, e lembro de algumas passagens da própria vida sinto na carne situações parecidas com o desemprego ou troca de empregos também vivida nos anos 1990 com todas as diferenças de contexto, e saída de casa, lá se vão mais de onze anos, e eu nunca retrocedi, muito menos pedi arrego pra ninguém, sempre encaro as paradas de frente e usando e apreciando as coisas que amortecem o delírio cotidiano com coisas reais, como o véio Chinoca:



"- Quer dizer que você não pode aguentar o emprego nem por uma semana?(...)
Eu não respondi à pergunta do meu pai. (...)
-Ele não pode comer - dissse meu pai-, não pode trabalhar, não pode fazer nada, ele não vale sequer uma trepada! (...)
Eu me lembrei do que Ivan disse no livro Os Irmãos Karamazóv, "quem não quer matar seu pai?" (...)
Eu varri o mercado de trabalho, como se costuma dizer, mas era uma rotina monótona e inútil. Como todo mundo lavava pratos, a cidade inteira estava cheia de lavadores de pratos desempregados."
Mas que diabo, eu nem conseguia um emprego de lavador de pratos. (...)
Minha mãe apareceu por detrás da folhagem.
-Henry, Henry, não vá para xasa, não vá para casa, seu pai vai matá-lo!
(...)
-como é que ele vai fazer issso? Eu posso lhe chutar a bunda!
-Henry, ele achou suas historietas e as leu!pra que ele as lesse.
-Eu nunca pedi que ele as lesse. (...)
- Ele disse que vai te matar! Disse que nenhum filho seu poderia escrever histórias como aquelas e continuar vivendo sob o mesmo teto com ele! (...)
-Vamos para casa, mamãe, e ver o que ele faz...
-Henry, ele atirou todas as roupas no jardim, toda a sua roupa suja, sua máquina de escrever, sua valise e suas histórias! (...)
A pobre mulher me agarrava pela camisa.
-Henry, escute, arrume um quarto para você em algum lugar! Henry, eu tenho dez dólares! Pegue esses dez dólares e arrume um quarto para você! (...)
Em primeiro lugar eu corri atrás dos meus manuscritos. Foi o golpe mais baixo que ele poderia fazer comigo. Eles eram uma coisa na qual ele não tinha o direito de mexer. (...) Não havia muito para colocar na mala. Fechei-a, peguei a máquina de escrever e comecei a andar. (...)
Achei um quarto na Rua Temple, no bairro filipino. custava três dólares e meio por semana e ficava no segundo andar."

Charles Bukowski, Misto Quente

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