segunda-feira, 26 de julho de 2010

Repassando o e-mail enviado pelo Cláudio Willer




Alguns dos versos bate e pronto.
Viva Piva!



Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci/



onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com


lágrimas invulneráveis/


onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes


que saem escondidos das tocas/


onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados


estéreis e incendeiam internatos/


onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam


a descarga sobre o mundo/


onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha


no seu hálito/


onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua


última janela/


onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte


branco/


onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe


escurecendo a página/


onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das


beatas/


onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas


penas/


onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da


imaginação


Paranóia, 1963



Eu vi os anjos de Sodoma escalando



um monte até o céu


E suas asas destruídas pelo fogo


abanavam o ar da tarde


Eu vi os anjos de Sodoma semeando


prodígios para a criação não


perder o ritmo de harpas


Eu vi os anjos de Sodoma lambendo


as feridas dos que morreram sem


alarde, dos suplicantes, dos suicidas


e dos jovens mortos


Eu vi os anjos de Sodoma crescendo


com o fogo e de suas bocas saltavam


medusas cegas


Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e


violentos aniquilando os mercadores,


roubando o sono das virgens,


criando palavras turbulentas


Eu vi os anjos de Sodoma inventando a


loucura e o arrependimento de Deus

(Roberto Piva in Paranóia, 1963)

 
Praça da República dos meus sonhos / onde tudo se fez febre e pombas crucificadas /
onde beatificados vêm agitar as massas / onde Garcia Lorca espera seu dentista / onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces


 
Uma tarde / é suficiente para ficar louco / ou ir ao Museu ver Bosch

Piazzas, 1964



amoras jorram a beleza anarquista de suas coxas molhadas
a este urubu em carne viva
que grasna na sacada


 
Queria ler Vico mas não posso / queria ler fico mas não fossa / queria tomar pico mas na roça / queria virar mico sem a coça / queria ouvir Chico lá na choça

Quizumba, 1983.


 
Está na hora de nossos poetas
deixarem de ser broxas
e tornarem-se bruxos

Homenagem a Roberto Piva

Dia 27 de Julho de 2010
A partir das 19h30
Casa das Rosas
Av. Paulista, 37 - Bela Vista - São Paulo - SP
Tel: (11) 3285-6986
(11) 3288-9447

Descrição:

O evento homenageia o poeta Roberto Piva, morto no dia 3 de julho em São Paulo, cidade onde nasceu em 1937.
A homenagem terá depoimentos de Claudio Willer, Roberto Bicelli e Rodrigo de Haro, seguidos de recital com a participação de Claudio Willer, Roberto Bicelli, Frederico Barbosa, Claudio Daniel, Marcelo Tápia, Fábio Weintraub, Virna Teixeira, Reynaldo Damazzio, Luiz Roberto Guedes, Rodrigo de Haro, Fábio Camarneiro e Danilo Monteiro.
Roberto Piva foi um dos mais importantes poetas do Brasil nas últimas décadas. Seu primeiro livro, Paranoia, foi publicado por Massao Ohno em 1963. Foi classificado como um "poeta maldito". Entre suas influência estão Álvares de Azevedo, Antonin Artaud, Arthur Rimbaud, Marquês de Sade, Pier Paolo Pasolini, entre outros.

domingo, 25 de julho de 2010

Uma passagem pelo Rio.

Tirei estes últimos dias de recesso para vir resolver uns assuntos com minha nega aqui no Rio de Janeiro, mais especificamente em Niterói. Conheço e venho ao Rio de Janeiro faz ao menos uns dez anos. A minha nega é nordestina, e tem parentaida espalhada pelo pais inteiro, que o construiu aliás. Tem muita carcaça de paraiba no concreto da ponte Rio-Niterói. É que os candangos caiam  e ninguém queria tirar. Lançavam a pá de cal por cima e mandavam brasa continuando a construção.
Estou aproveitando o sol na carne neste final de semana, claro, estudando nas horas vagas entre umas cervas e canas, antes de voltar neste domingão para Sampa, a vida dura e corrida do cotidiano. Dando uns rolês pelo Rio, esperando o congestionamento passar e pegando a balsa pra Niterói. Ou comendo uns camarões à alho e óleo no mercado de São Pedro de Niteroi, uns caldinhos de feijão e tudo que tenho direito. Até no Maracanã fui, ver o Mengão jogar, e não é que o Avaí deu um passeio e quase ganhava no templo do futebol? Quem nos levou foi o Jorge, um amigo, um velho senhor de 73 anos, um velho malandro carioca das antigas, daquele que não existe mais, ele fica como um touro sentado vendo o jogo, calado, gosta de jogar um carteado, de apostar em cavalo, e só fica de pé, não senta nunca, e fala demais, contando piadas.
Fiquei só aproveitando os remelexos e os rebolados dos sotaques cariocas. Pena que tudo de bom acaba rápido demais. Logo mais, depois que postar aqui, logo logo estarei de saída, pegando a estrada. Acabarão as noites de frente para o mar e aquela brisa que é inigualável, brisa de cidades praianas.

Estadia Carioca

Uma estadia carioca nada metafísica

Sem espírito sem idealizações sem o romantismo Nem garotas de Ipanema

Apenas tardes de sol em Niterói e noites no Rio

Com aquele cheiro de tripas de peixe e moluscos e outros frutos do mar

Misturados com o cheiro da gordura das padarias da Peixoto Gavião

Passam coxas e bundas e peitos Carne de sol à milanesa

De todas as cores tamanhos e formatos E sotaques com remelexo

Coxudas, como um vinho tinto outras como um rose e outras com gosto de vinho seco

Sorvo o vinho da minha existência, não ao som de um tango nem de um blues

Mas na dor de cotovelo de um samba de Nelson Goncalves, Cartola,  Lupicinio e muita seresta na vitrola

Na praia de Piratininga a piriguete barrigudinha mascava chiclete

enquanto uma loira me perguntava as horas Naquele bar Itaipava

tomei uma cerveja com os mendigos de Icarai a beiramar

Eu curti o jogo do Flamengo em que o Avai jogou mais Em pleno Maracanã,

vi a estátua do Mané Garrinha todos passavam e davam uma peba em sua cabeça

Tirei uma trincha e andei no bonde em Santa Teresa

Tomei muitas loiras geladas no paço imperial antes de pegar a balsa

Cheiro de hambúrguer e calabresa à vinagrete nos carrinhos da praça de Niterói

Noitadas na Lapa embaixo dos arcos e dos trilhos dos bondes de Santa Teresa

Não passam mais malandros vestidos de branco Com sapato branco no fio da navalha.

Celso Torrano, Julho 2010

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