sábado, 26 de dezembro de 2009

Blues do abandono



Esta madrugada após o Natal foi uma madrugada blues
madrugada endiabrada, vida atribulada
tava pra um Robert Johnson tomando uisque com estrecnina
estou para além dos maniqueísmos de bem e mal
deus e o diabo, mas confesso que o diabo é mais real
porque a safadeza predomina no mundo, a maldade é palpável
Fui abandonado por deus (se é que alguma vez ele realmente existiu)
ele nunca me acompanhou, sempre foi um pai ausente
suspendo o juízo em relação a estas questões
meu ceticismo, meu agnosticismo impede uma fé ou crença
prefiro escutar a Volta do boêmio do Nelson Gonçalves ou Um velho ateu do Gudin
não preciso de nenhum consolo metafísico para provar minha existência
consolos são para fracos ou pra quem quer algo no rabo
Aguento a barra sozinho, enfrento tudo de cara
Ontem passei no largo da Batata
estava a maior fuzarca nos risca facas, carro de polícia
Num canto da obra do metrô uma negona (ou seria um negão?) chupava o pau de um cara
Coloquei uma ficha na Jukebox daquele bar pra ouvir Belchior
Nenhuma marca de batom, estava solitário pacas
só a mesma lua crescente sobre o prédio, não havia o Maurão dos hot-dogs
a louca de cabelos brancos também não resmungou sob minha janela
nem os curiangos e os morcegos ficaram pra falar comigo
só se ouviam meus passos pelas ruas escuras e cheias de árvores
o gato filósofo Benjamin foi o único a me esperar no portão
Cantei como o Martinho da Vila na jukebox pra minha nega
vem logo curar seu nego que chegou de porre lá da boemia
agora posso dormir em paz

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Jogos de moleques


Foto de Mai 1989, de alguma festinha, pois estávamos vestidos um pouco melhor - Direita pra esquerda: Jefferson, Pinico, Jorge, Fábio, eu, (os debaixo, que me deixavam apanhar sozinho: Fabinho, Carlitos e Douglas)

 
Nós éramos o terror da vizinhança. As velhas senhoras e senhores nos odiavam, tratavam-nos como moleques desordeiros, na rua aprotávamos de montão. Havia um portuga de meia idade, este era o mais mal humorado. Certa vez ele pegou a bola de capotão com que tirávamos nossos rachas e deu uma bica pra bem longe. Só por causa de nossa inocência e ingenuidade. Ela várias vezes batia nos portões das casas, pra raiva de muitos, pois os portões eram nossas traves e gols. Geralmente os nervosos conosco eram os que menos se socializavam nas festas de rua que costumávamos fazer, festas juninas.

Todas as questões da rua eram resolvidas nela própria. As divididas das peladas de futebol, as pernas que torci ou quebrei, os arranhões, machucados, levávamos para nossa casa. Mas todas as brigas ficavam lá, e logo estávamos conversando novamente. Cuzão era quem a mãe intervinha ou quem ia contar. O dedo duro levava umas coças e era tirado ainda se contasse sobre alguma arte que aprontássemos. Como a vez que um colega subiu num telhado de amianto de um vizinho pra apanhar uma bola e acabou despencando junto com um pedaço da telha. Todos ficaram com as bocas costuradas. Era uma cumplicidade de ferro no crime.

Às vezes, jogávamos também taco. colocávamos umas latas de óleo ou armações de madeira, as bases, e jogávamos com uma bolinha de borracha. Ganhava quem mandava a bola pro inferno e corria até a base do inimigo algumas vezes. Era tudo tão inocente, desde as brincadeiras de esconde-esconde pela rua de baixo, em um caminhão sempre estacionado por ali, na esquina. Apanhávamos algumas goiabas no terreno da petrobrás, uns terrenos baldios que propiciavam alguma fuga ou alguns moleques corriam riscos, como o fabinho japonês, que foi perseguido por um tarado com a benga na mão. Brincávamos de mãe da rua, cada macaco no seu galho na frente de casa. Muitas gurias eram nossas paixões, pelo que aprontávamos, e também gostávamos de umas pencas.

Éramos as gangues das ruas, formávamos e deixávamos nossas marcas e sinais nas paredes das redondezas. Encontrávamos para festinhas e bailes noturnos. Só até alguns dedo-duros nos estregarem e cortarem nosso barato.


Foto na Cachoeira das Emas, Pirassununga-SP

Os mergulhos na lagoa azul também eram apenas para aqueles que eram durões, que tinham culhões de pular. Sempre fui dividido entre o urbano e o rural até certa idade, meus tios maternos ensinaram-me brincadeiras, como armar arapucas, rodar pião, jogar bolinhas de gude no quintal do meu avô. E também ensinaram-me a nadar na Cachoeira das Emas, na cidade vizinha de Pirassununga-SP. Na cidade grande eu também me aventurava com carros de rolimã na descida, pipas, entre outras bicicletas mais urbanas.

Mas nadar era algo ligado ao rural. Sempre curti mais nadar em lagoas, açudes, rios ou mar do que em piscinas. Sempre foi mais excitante e arriscado, dai eu curtir mais. No caso do lago azul em Casa Branca, eu tinha maior coragem pra encarar os pulos do altão. Haviam três níveis: o razinho, o médio e o altão. Só valia todo esforço de ralar pra chegar lá de bicicletas se fosse para pular do altão, ouvir o zunido do próprio corpo caindo pelo ar até se espatifar no poço de água lá no fundo. outra coisa doida eram as escaladas e o jogo de equilibrista por paredes finíssimas das boçorocas. O menor vacilo, levaria ao chão, ao hospital, ou quem sabe, à morte. Era muito sangue frio e cabeça fresca. Só para os mais loucos.

Poema de Natal



Jogo garrafas ao mar mandando telegramas telepáticos às musas e deusas que amo
Enquanto espero a chapa esquentar no boteco da esquina
o fio do cortador de frios está cego
enquanto homens bebem em suas casas
procuro pelo último lugar aberto
São cinco e meia da manhã
estou batendo no supermercado
procurando pela última cerveja
Um cachorro latia deseperado
Para a lua minguante amarela no alto de um prédio
no início da noite retrasada
O gato Benjamin, vadio e filósofo,
esperava no portão ronronando e roçando nas minhas pernas
esmaguei uma barata no corredor ao chegar em casa
elas ficam ouriçadas com o calor
sobem pelos ralos até o terceiro andar
Vejo um velho tomar sua cerva na porta do bar
escolho aleatoriamente os anúncios do orelhão
procuro umas coxas boas de uma dançarina stripper
Telefono para o além, em vão, ninguém atende
Não consigo nem socar uma punheta, a casa tá cheia
Lanço uns caramelos e dadinhos
pros moleques artistas de circo dos semáforos
Os paulistanos se embasbacam vendo os enfeites da Avenida Paulista
os banqueiros usam o dinheiro que parasitam deles próprios
enquanto uma família inteira na sarjeta da Teodoro não terá perú na ceia de natal
não porque podem escolher não querer, mas porque não têm nada
A chuva do mormaço corta mais ainda o coração vadio
No meu coração de poeta vagabundo ainda cabe você
Passarei meu natal com as vadias, os bêbados, os mendigos
as prostitutas, os desajustados, o Condicionado,
a louca de cabelos brancos das vilas das irmãs
discute e briga sozinha sob a minha janela
eles são a minha verdadeira família

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

O diabo, o Blues e o rock and roll




Desconfio de todos os doidões e dos professorais
Dos falsos profetas e pessimistas
prenunciadores do fim do mundo
Os que falam do degelo das calotas polares
e da subida do nível do mar
os pobres são fodidos e sempre souberam disso
Desconfio daqueles que me dizem que não posso
comer isso ou aquilo, que terei infarto
que não posso fumar, beber ou me drogar
bem como daqueles que dizem que isto é pecado
Há outras drogas no mundo
como a propaganda e a publicidade
estas lícitas e aprovadas
que me enchem o saco todos os dias no rádio
e com panfletos nas ruas
nunca comprei livros de auto-ajuda
não assisto a seus programas de TV
muito menos chorarei sobre suas bíblias
ou livros sagrados

*

Enquanto pastores babam, vociferam suas pregações
ou realizam suas danças carismáticas e pentecostais
Eu escuto um blues no meu quarto
Blue Öyster Cult ou Led Zeppelin
Aprendi faz tempo que os bluesman e rockers
tinham coisa com o Tinhoso e não com Deus
ele é mais engraçado e divertido
o demônio não é tão feio como o pintam os cristãos
na verdade, é só mais um guia como os outros
quem tem um bom daimon, tem um guia
ter um guia como o diabo, o blues e o rock and roll
passou a ser uma perspectiva interessante
não a da culpa, a do pecado, da caretice
do Deus vingativo e punitivo dos cristãos
mas o da experiência e da vivência
dos sentidos,
do toque

Trechos em Minas



Os caronas nunca desanimam frente às dificuldades. Certa vez, nos metemos numa viagem, ela passava pela Fernão Dias, e o mais curioso foi que fomos com um casal de amigos, a Bibiana e o Alexandre, e tinha também o seu bebê. Cortamos os pedágios pela Fernão dias, até o Circuito das Águas e adentramos o das malhas, em Jacutinga, e já em minas chegamos em Ouro Fino, Monte Sião, entre outras da região. A viagem era só regada a alambiques e doses de pinga, estrada de terra, sendo que uma delas era um barro só molhado que o carro quase atolava e deslizava o fiatinho véio de guerra.
Aquele pedaço de Minas Gerais ficava bonito à noite, era uma céu estrelado em Guaranésia e em Muzambinho, em Guaxupé, mas a viagem já tava se prolongando a beça, por meio do mato e pela estrada de terra. O guri até deu um vomitão no banco de trás, pra entrar pra galeria dos vomitões. Quando chegamos a Passos de Minas, resolvemos dar uma espichada. Lá era bom que só vendo, muitas mineiras bonitas fazendo bico de garçonete nas férias da faculdade, muita prosa no bar da cidade central, que resolvemos ficar por ali mesmo numa pensão e tomar uma. Na manhã seguinte, faríamos com o casal o resto da viagem até o Vale do Céu, em São João Batista do Glória.
O Glória é um lugar muito bonito, com um poço para mergulhar, dar uns pulos e sentir calafrio na barriga. A Distância até a queda na água é considerável. É de fato um vale próximo do céu. Na virada do ano, passamos com o garrafão de vinho e fizemos arroz com a água da cachoeira, e abrimos umas feiju em latas. Foi a melhor virada dos últimos anos. Cedo eles preparavam um pão de queijo muito gostoso naquele barzinho do dono das terras, que servia o café da manhã.

*

Houve certa ocasião que corri um trecho solitário até Carrancas. Desci em Lavras, e o resto foi ou na bota ou em caronas. Lavras à noite é muito bonita, uma noite tranquila, com aquele cheiro de mato molhado e de chuva no ar. Eu estava partido para encontrar uns camaradas acampados em Carrancas, uma cidade minúscula, mas rodeada por mais de duzentas cachoeiras que tentamos ir na bota, mas algumas, só de carona mesmo. A partir de Lavras, peguei a estrada a pé, aquela que vai dar em São João del Rei. A estrada estava escura. Consegui uma carona até de manhã, para entrar na porta da vila que dava para o único ônibus pra Carrancas. Chegando lá, eu topo logo pela manhã com um casal de amigos. O ônibus já tinha partido. Pegamos a estrada, que era muito bonita, de pedregulhos e areia batida. Foi muito bom encontrar com um senhor, uma figura. Ele dirigia uma brasília que não tinha freios, mas como estavamos mangueando e ficamos sabendo depois que estávamos dentro, isto não tinha muita importância. Só na hora da Serra que a coisa complicaria. O importante foi chegar lá e assar um pouco até despelar em Carrancas, curtindo as cachoeiras e a noite da cidade.

*

O busão que me levaria até Ouro Preto viajaria à noite. Levei minha garrafinha de cachaça, um livro do Bakunin e outro do Reich na mochila pra me distrair em alguns momentos. Logo pela manhã, eu chegava na terra dos arcadistas, de Dirceu, de Gonzaga, regado a pingas amarelinhas de alambique e muito Aleijadinho e Atayde na visão. Foi uma curtição solitária, de andar por todas aquelas igrejas barrocas, cheias de ouro. À noite eu subia até a igreja mais alta com meu copo de pinguinha de alambique, ficava degustando a paisagem e reparando na névoa que caia sobre a cidade. Conheci de tudo mesmo, até as pensões, comia tutu, bisteca de porco, couve, que conseguia nuns lugares baratos. Eu fui até Mariana, naquela Igreja do órgão, aquela que pegou fogo.
Tive de ir até Belorizonte para poder voltar pro interior de São Paulo, até são Sebastião do Paraíso. Tive como companheiro de conversa de funão de ônibusum rapaz mais novo, ele foi conversando sobre os livros e sobre a guria que ele também tinha deixado lá, daí a razão de sua partida. A minha estava esperando para depois por fim às coisas, e pra eu depois tomar um porre daqueles. A viagem era longa, a noite inteira pra cruzar as Minas Gerais, passando pela represa de Furnas a noite, cheia de luzes e descidas.
Eu ainda teria que dormir naquela rodoviária de São Sebastião até de manhã, não tinha mais ônibus e nem movimento, mais nada, a não ser um pedaço de merda no chão da sala de espera que alguém deixou ali propositalmente. Dormi cabreiro, um olho aberto outro fechado, temendo aprontarem alguma comigo.

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